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Seja um observador silencioso e relaxado

 

      Querido Osho, 
      Você arrebatou o meu coração e agora é tarde demais. Eu estou curtindo tanto a solitude e a preguiça que às vezes eu penso que algo deve estar errado comigo.
      Eu sinto que estou no começo de uma nova jornada e existe uma questão que não pára de vir à tona: qual a diferença entre ser um observador e o sentimento de ‘eu não sou isto’?

     “Prem Anugraho, não é verdade que eu arrebatei o seu coração. Você o deu para mim. Se eu o tivesse arrebatado, não seria tarde demais; mas como você o deu para mim, então, com certeza, é tarde demais!
      O mestre nada arrebata do discípulo. O discípulo dá tudo, incluindo a si próprio. O mestre lhe dá uma oportunidade para dar. E é uma alegria e uma delícia dar o seu coração. Nada consegue ser mais precioso, um presente, e não existe outra maneira para demonstrar a sua gratidão. 
      Mas, qualquer que seja o caso, o seu coração já se foi!
      E você está dizendo, ‘Eu estou curtindo tanto a solitude e a preguiça que às vezes penso que algo deve estar errado comigo.’ E está.
      Curtir a solitude é absolutamente correto, mas curtir a preguiça não é certo. Preguiça é um estado negativo. A pessoa deve estar com a energia transbordante. Deve se sentir tranqüila, mas não com preguiça. Deve se sentir relaxada, mas não preguiçosa. 
      Preguiça e tranqüilidade parecem tão semelhantes que é muito fácil confundir o que é uma e o que é outra. Se você está curtindo a sua solitude, isso não pode ser preguiça, porque a preguiça sempre traz uma certa sensação de culpa, um certo sentimento de que ‘eu estou fazendo alguma coisa que não deveria estar fazendo,’ que ‘eu não estou sendo um participante na existência.’ Preguiça significa que você desistiu da criatividade do universo – você se afastou, enquanto o universo continua criando, dia após dia.
      Você está confundindo preguiça com tranqüilidade.
      Todo o meu ensinamento é: faça tudo com absoluto relaxamento, com tranqüilidade. Se você está fazendo algo ou não, não é a questão. Você deve estar transbordando energia, mesmo quando você não estiver fazendo coisa alguma. Estas árvores não estão fazendo coisa alguma, mas elas estão transbordando energia. Você pode ver isso em suas flores, em suas cores, em seu verdor, em seu frescor, em sua absoluta beleza nua sob a luz do sol, e na noite escura sob as estrelas.
      Na vida não há tensão em lugar algum, exceto na mente humana. Levar a vida com facilidade, sem qualquer tensão, sem qualquer pressa – isso não é preguiça, isso é tranqüilidade.
      Eu me lembro de um erudito de Bengala, muito instruído. Seu nome era Ishwar Chandra Vidyasagar. Ele ia ser agraciado com a mais alta condecoração que o Império Britânico concedia na Índia, devido à sua erudição. 
      Mas ele costumava viver de uma maneira muito simples e seus amigos o pressionaram – ‘Assim, você não terá uma boa aparência no Parlamento, diante do Vice-Rei, diante de todos os parlamentares e dos outros dignatários. Nós faremos uma bela roupa para você, nós lhe traremos bons sapatos.’ Ele ficou relutante, mas eles eram insistentes e, finalmente, ele concordou.
      Mas havia uma intranqüilidade em sua mente, em seu coração, não havia uma aceitação total. Mudar o estilo de vida só porque iria receber um prêmio das mãos do Vice-Rei, para ele parecia ser como uma condescendência. Era contra o seu amor próprio.
      O acontecimento seria no dia seguinte, e ele estava caminhando na praia com a mente perturbada: seguiria o conselho de seus amigos ou iria simplesmente do jeito que sempre viveu?
      E, naquele exato momento, ele viu um homem que vinha correndo. E ali, na sua frente, um muçulmano muito rico também estava caminhando na praia – o homem disse ao muçulmano rico... E Vidyasagar ouviu, pois estava apenas a quatro passos atrás. O homem disse, ‘O que você está fazendo aqui? O seu palácio está pegando fogo.’
      O homem rico disse, ‘OK,’ e continuou caminhando com a mesma tranqüilidade, como se nada tivesse ocorrido. 
      O homem que trouxe a notícia disse, ‘Você ouviu ou não? O seu palácio está em chamas, tudo está queimando e parece não haver jeito de salvar coisa alguma.’
      Ele disse, ‘Eu ouvi. Agora, você vá e faça o que for possível fazer. Primeiro eu tenho que terminar a minha caminhada, em seguida eu irei para lá.’

      Vidyasagar não conseguia acreditar naquilo. A sua casa estava toda em chamas – e ele tinha o mais belo palácio, rico e cheio de antiguidades. Ele era apaixonado por pinturas e estátuas e seu palácio era quase como um museu. As pessoas costumavam ir até lá para visitar. E havia tantos tesouros artísticos para serem vistos que, apenas para dar uma volta em seu palácio, demoravam-se horas. Tudo estava em chamas e o homem dizia que primeiro iria terminar a sua caminhada.
      E ele continuou no mesmo ritmo. Não havia qualquer pressa, nem tensão. Vidyasagar não conseguia acreditar em seus próprios olhos, e um pensamento surgiu: ‘Aqui está um homem que sabe como viver em completa tranqüilidade. Tudo o que acontecer no mundo não irá mudá-lo nem um pouco. E aqui estou eu – só por um prêmio do Vice-Rei, eu vou mudar todo o meu estilo de vida. Eles vão cortar e dar um formato aos meus cabelos, cortarão e darão um formato à minha barba, e eu concordei! Não, eu vou ser simplesmente eu mesmo.’

      E ele agradeceu ao homem rico. ‘Você me salvou.’ O homem rico lhe disse, ‘Eu não entendo – como eu o salvei?’
      Vidyasagar explicou, ‘Eu ia mudar toda a minha roupa, raspar a minha barba e cortar o meu cabelo, apenas para ser respeitável, para parecer rico, apenas para receber um prêmio. E a sua casa – eu fui muitas vezes ao seu palácio. A coleção de toda a sua vida, com grandes pinturas e outras peças de arte estão em chamas, e você nem se perturbou.
      ‘É por isto que eu digo que você me salvou: Amanhã eu irei exatamente do jeito que eu sou. Você me ensinou a maior lição da minha vida: que a pessoa pode fazer tudo tranqüilamente, é preciso apenas uma certa aceitação de que tudo o que está acontecendo está acontecendo e os que as pessoas podem fazer, elas estão fazendo. O que mais eu posso fazer?’
      O homem completou a sua caminhada e depois seguiu em direção à sua casa, sem alterar o ritmo. Vidyasagar seguiu o homem só para ver o que mais aconteceria. Havia uma grande multidão e quase tudo já estava queimado. Todos os esforços foram em vão. 
      O homem rico também parou ali junto com a multidão, de pé como os outros estavam. Os outros estavam tensos, com grande ansiedade, com muita pressa – o que fazer? Como salvar? – e ele estava ali parado, apenas como uma testemunha, como se fosse a casa de uma outra pessoa, como se fosse a coleção de arte de uma outra pessoa que estivesse queimando.
      Isso não é preguiça. Isto é um tremendo centramento do ser, é estar firme e enraizado de tal maneira que consegue levar tudo com tranqüilidade.
      Não é preciso pensar que ‘algo deve estar errado comigo.’ Apenas substitua a palavra ‘preguiça’ e tudo mais está certo com você.
      As palavras significam muito. Eu fiquei sabendo, há dois dias, que na União Soviética existem muitos países muçulmanos... E a religião foi banida pelo partido comunista. A cada criança é ensinado o ateismo desde pequenina. Com isso, os muçulmanos têm tido um problema. O que fazer?
      O mês do Ramadã está chegando, é o período em que, por trinta dias, eles jejuam durante o dia e comem à noite. Fazer isso seria uma indicação clara de que você está agindo contra o governo, de que você ainda está seguindo uma religião. Então, eles simplesmente mudaram o nome; eles chamam de ‘mês da dieta’ e agora eles não têm problemas. Fazer dieta não é problema. Jejuar é proibido.
      Um muçulmano, de acordo com sua religião, deve orar cinco vezes por dia. E essa oração é feita de um modo que parece um exercício: ele se curva ao chão, se levanta, curva ao chão, toca a terra, se levanta novamente, enquanto internamente ele está recitando o seu mantra. Agora eles continuam fazendo isso, mas eles chamam de ‘exercício’. Isso mantém seu corpo e sua mente em boa forma – quanto à alma você nada pode falar, apenas o corpo e a mente. Na União Soviética a alma não existe, ela é contra a política do governo, mas ninguém pode impedi-lo de fazer exercícios. Mesmo quando você faz cinco vezes por dia, isso não é um ato criminoso, isso não é uma religião. E é bom para o corpo e para a mente. 
      Apenas substituindo as palavras... E você verá que cada palavra traz uma certa conotação com ela. Preguiça tem uma conotação condenatória muito negativa. Mas estar tranqüilo é um fenômeno bonito – relaxado, à vontade, centrado, sem qualquer tensão e sem qualquer angústia. Apenas por causa daquela palavra ‘preguiça’, surgiu em você a idéia: ‘algo deve estar errado comigo’. Nada está errado com você. 
      Eu sinto que estou no começo de uma nova jornada e existe uma questão que não pára de vir à tona: qual a diferença entre ser um observador e o sentimento de ‘eu não sou isto’?’
      
A diferença é grande, mas muito sutil. Quando você diz, ‘eu não sou isto,’ naquele momento você não é um observador. Existem duas alternativas: ‘Eu sou isto’ – um pensamento passa na sua cabeça e você diz, ‘Eu sou isto,’ Isto é um pensamento. Ou você diz, ‘Eu não sou isto.’ Isto também é um pensamento. Apenas porque é uma negação, não faz qualquer diferença.
      Mas existe um observador por trás de ambos: ‘Eu sou isto’... ‘Eu não sou isto’... Ambos são observados por uma consciência que está além.
      O observador é simplesmente um espelho.
      Ele não diz coisa alguma, ele apenas reflete. 
      O observador não conhece língua alguma, não conhece conceito algum. Ele é pura consciência, ele está apenas vendo.

      Simplesmente pense em um bebê que acaba de nascer; ele também verá a luz no quarto, as belas cores das paredes. Ele também verá o médico, as enfermeiras, o pai, mas ele não consegue dizer, ‘Isto é luz, esta é uma cor bonita; esta é vermelha e aquela é verde, este é o médico, esta é a enfermeira, este é meu pai.’ Mas ele está vendo tudo. Ele é puramente um observador.
      Mas ele não consegue nomear coisa alguma, ele não consegue verbalizar. Como ele poderia dizer ‘Isto é vermelho’? Ele nunca soube disso antes e ninguém lhe disse que essa cor é vermelha. Como ele pode pensar que isto é luz? Ele nada sabe a respeito de luz e escuridão. E como ele pode fazer a distinção entre o médico e o pai, e entre um homem e uma mulher? Essas diferenças têm que ser aprendidas.

      Mas os seus olhos estão abertos, e ele tem os olhos mais frescos, como jamais terá em toda a sua vida, a melhor clareza. Eles são apenas espelhos, refletindo tudo o que está ao redor. Não há palavra alguma, nenhuma explicação, nenhuma linguagem, nenhuma mente.
     
A situação do observador é a mesma. Você novamente se tornar uma criança recém nascida.
      No centro mais interno de seu ser, você sempre é um observador.
      Assim, você pode dizer, ‘Eu não sou isto’ – e terá perdido o observador. Você voltou de novo para a mente. Só a mente fala dentro de você.
      Exceto a mente, nada fala dentro de você.
      O seu coração não fala, o seu ser não fala. Só a mente fala. O seu coração sente, o seu ser sabe, mas nada há para ser dito.
      Mas Anugraho, as questões continuarão vindo. Na mente, as questões surgem assim como as novas folhas brotam nas árvores. Uma questão desaparece, uma outra questão se levanta. A mente é uma fábrica que produz questões.
      Se nenhuma questão surgir, então a questão será, ‘O que está acontecendo? Nenhuma pergunta está surgindo, algo deve estar errado.’
      Você tem que estar consciente de que a mente é a questão. A forma que ela toma é imaterial. E se você continuar seguindo atrás da questão, irá se mover no caminho da filosofia. Você encontrará respostas, e cada resposta trará mais dez novas questões. E isso continuará se espalhando. A mente filosófica nunca chega a alguma conclusão. Toda a sua vida ela pensa – questão após questão – e a todo tempo ela encontra alguma resposta. Mas no momento em que uma resposta surge, ela traz mais questões com ela. Não existe fim algum para os questionamentos.
      Este é o ponto onde a filosofia e o misticismo autêntico tomam caminhos separados. A filosofia continua depois das perguntas e respostas e nunca alcança conclusão alguma. O misticismo simplesmente abandona a mente - porque ela nada mais é que um mecanismo para criar questões - e se move em direção ao silêncio. E a coisa mais incrível na vida é que então, quando não existem perguntas, você encontra a resposta.
      Podem existir milhares de perguntas, mas existe uma só resposta, e essa resposta é a sua consciência. Ela não existe em forma de uma resposta, ela existe em forma de uma experiência: de repente, um grande silêncio desce sobre você. Tudo se torna calmo e quieto. E sem qualquer palavra, sem qualquer conhecimento, existe o conhecer. Conhecer que você chegou em casa, que agora não existe lugar algum para ir.
      E se você olhar para a história da humanidade... Desde o homem mais primitivo, as mesmas questões têm sido perguntadas. As respostas têm se tornado mais e mais sofisticadas, mas nenhuma resposta destrói a questão. A questão tem uma imensa capacidade de sobreviver a todas as respostas: ela volta novamente com um novo formato.
      Você pergunta quem criou o mundo. As suas religiões organizadas dizem que Deus criou o mundo e a mente pergunta, de imediato, quem criou Deus – a resposta é anulada.
      E se alguém disser, ‘O deus número um criou o universo, o deus número dois criou o deus número um, o deus número três criou o deus número dois’... Isso será absurdo, porque sobre o último deus haverá a mesma pergunda: quem o criou? A pergunta tem uma imensa capacidade de sobreviver a todas as suas respostas, seja qual for a sofisticação delas.
      O caminho do místico é totalmente diferente do caminho do filósofo. O místico não tenta encontrar respostas para as perguntas. Ele simplesmente compreende uma coisa: até que ele consiga ir além da mente, as perguntas continuarão, e nenhuma resposta poderá ajudar.
      Mas no momento em que você for além da mente, todas as perguntas desaparecerão, e em tal desaparecimento você encontrará a resposta – sem palavras, sem linguagem, você terá se tornador um conhecedor. Você se tornará o próprio conhecer, não o conhecimento. Este estado é o estado do observador.
      Assim, não diga, ‘Eu não sou isto.’ Existem escolas que ensinam isso – quando você vir alguma coisa na mente, continue dizendo, ‘Eu não sou isto, eu não sou o corpo, eu não sou a mente, eu não sou o coração; eu não sou isto, eu não sou aquilo.’ Mas o observador está além de todas as suas negações, assim como está além de suas afirmações positivas.
      Permaneça silencioso; não diga coisa alguma. Se algum pensamento flutuar em sua mente, deixe-o flutuar. Da mesma maneira como você permite uma nuvem flutuar no céu – você não fica gritando, ‘Eu não sou isto.’ A sua mente também é um céu, uma tela. As coisas passam. Você simplesmente observa.
      Quando Adão perambulava pelo Jardim do Eden, ele observou dois pássaros pousados na árvore. Eles estavam juntos, se aconchegando, bicando e arrulhando. Adão perguntou ao Senhor, ‘O que estes dois pássaros estão fazendo na árvore?’ O Senhor disse, ‘Eles estão fazendo amor, Adão.’
      Um pouco mais tarde, perambulando pelo campo, ele viu um touro e uma vaca se aproximando um do outro. Ele perguntou ao Senhor, ‘Senhor, o que está acontecendo com o touro e a vaca?’
      E o Senhor disse, ‘Eles estão fazendo amor, Adão.’
      Adão então disse, ‘Como é que eu não tenho com quem fazer amor?’
      O Senhor então lhe disse, ‘Nós mudaremos isto. Quando você acordar amanhã cedo, as coisas estarão diferentes.’
      Assim, Adão deitou debaixo de uma oliveira e dormiu. Quando ele acordou, Eva estava diante dele. Adão deu um pulo, agarrou as mãos dela e disse, ‘Venha comigo. Vamos para trás dos arbustos.’ E assim eles foram. Mas, alguns minutos depois, Adão saiu tropeçando, parecendo muito abatido e perguntou ao Senhor, ‘Senhor, o que é uma dor de cabeça?’
      Você não consegue pôr um fim nas perguntas. Uma coisa ou outra vai acontecer ali – se nada mais houver, então uma dor de cabeça. Desde que Adão perguntou ‘O que é uma dor de cabeça?’ O Senhor desapareceu, dizendo, ‘Esse idiota não vai me deixar descansar. Ele voltará de novo e de novo – ‘Senhor o que é isto? Senhor, o que é aquilo?’ Desde então, ninguém mais soube onde o Senhor está!.
      Não crie dor de cabeça desnecessária para si mesmo. Simplesmente seja um observador silencioso e relaxado. A dor de cabeça irá desaparecer – e a cabeça também! E você irá descobrir uma grande liberdade, um amplo espaço, como se todo o céu tivesse se tornado disponível para você.”

                          OSHO – The Hidden Splendor - Cap. 3 – Pergunta 1
                         
Tradução: Sw. Bodhi Champak

   

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